É (ou deveria ser) desnecessário dizer que o Brasil é um país heterogêneo e que, para vencer uma eleição presidencial, é preciso obter 50% + 1 dos votos. O problema é que aparentemente há um grupo na política que se esquece disso. E esse mesmo grupo está justamente do lado que deveria vencer as eleições, ou seja, no lado oposto ao PT. Foi assim que, desde 2002, o PT venceu todas as eleições, exceto a de 2018.
Estou dizendo isso por conta da inexplicável indiferença do campo conservador em relação ao discurso social. É um pouco-caso tão absurdo que nem mesmo aquilo que Jair Bolsonaro fez mais e melhor do que Lula aparece no discurso e na campanha de seu próprio filho.
Se os tucanos perderam quatro eleições para o PT, foi precisamente porque não tinham em seu campo a conexão com o sentimento popular. Bastou passar o efeito dos primeiros anos do Plano Real para que a carruagem tucana virasse abóbora.
O diferencial de Bolsonaro foi conseguir unir o segmento evangélico em torno de um só candidato e, assim, criar uma conexão entre a oposição ao petismo e uma massa popular com peso suficiente para tornar viável uma candidatura antipetista.
No entanto, bastou o Sistema tirar Lula da cadeia e devolver-lhe a elegibilidade para a facilidade observada contra Haddad desaparecer. Por mais que Lula tenha dado apenas migalhas aos pobres e enriquecido o “andar de cima” como ninguém, a conexão do discurso lulista com o povo é indiscutível.
O mesmo equilíbrio de 2022 repete-se em 2026, mas o fator que poderia desequilibrar a balança a nosso favor segue sendo ignorado. Observem que, por mais difícil que seja para o petismo penetrar no segmento evangélico, ele tem tentado isso há anos. Sem ter nada para mostrar aos evangélicos e com muito a esconder, a audácia petista não hesitou em tentar criar alguma conexão com esse segmento — não para tomá-lo do bolsonarismo, mas para extrair dele o que for possível.
Já o bolsonarismo, por sua vez, abre mão solenemente do discurso social. Uma renúncia ingênua e perigosa que pode nos custar o milhão de votos necessário para vencer Lula. Nem se trataria de ter a mesma ousadia do petismo em relação aos evangélicos, porque, no caso do bolsonarismo, há muito o que mostrar e nada a esconder no que se refere ao cuidado com o povo.
Se em quase 15 anos de governo do PT o programa de renda mínima do Governo Federal (Bolsa Família) chegou a uma média máxima de 190 reais, com Bolsonaro houve dois aumentos: para 400 reais e, depois, para 600 reais. Um ganho de 215%.
E não para por aí: Lula e Dilma somados haviam titulado menos de 300 mil famílias no campo ao longo de quatro mandatos petistas. Bolsonaro titulou 404 mil em apenas um mandato.
Não se trata de exigir que Flávio Bolsonaro se transforme em uma Madre Teresa de Calcutá em seus discursos. Contudo, da mesma maneira que ele não virou um Milton Friedman e escalou Dani Marques para falar de economia em seu nome, sua campanha deveria criar os meios necessários para dialogar com os vulneráveis, com os brasileiros que vivem em estado de pobreza paralisante, no qual nenhuma meritocracia é capaz de superar as adversidades isoladamente.
O que parece, porém, é que o entorno de Flávio Bolsonaro não conhece a Baixada Fluminense, o Vale do Jequitinhonha, o Cariri, o Amapá, o Marajó ou o Juruá. Sem dialogar com eles, será difícil criar conexão com 50% + 1 dos eleitores. É possível vencer sem isso? Pode ser. Mas é um esforço sem sentido para tornar ainda mais complexo o desafio gigantesco de derrotar o consórcio do Sistema aliado ao petismo.