Na reta final de uma campanha presidencial, há movimentos que não oferecem garantia de resultado, mas cuja omissão pode custar caro. Um deles é a decisão de disputar, de forma direta e sem constrangimento, o imaginário do eleitor pobre que ainda vota em Lula por associá-lo à esperança de uma vida melhor.
Não se trata de abandonar a identidade do campo bolsonarista, nem de copiar a linguagem da esquerda. Trata-se de testar, com inteligência política, se ainda existe espaço para dialogar com milhões de brasileiros que moram em favelas e periferias e que querem, acima de tudo, melhora concreta de vida.
Nesse ponto, o deputado Hélio Lopes talvez seja uma das vozes mais adequadas para abrir essa conversa.
A razão é simples: em temas sociais, o mensageiro importa tanto quanto a mensagem. Flávio Bolsonaro pode até incorporar essas pautas ao programa, mas não é necessariamente ele quem deve inaugurar esse discurso de forma mais enfática.
Hélio Lopes, por sua trajetória, sua identificação popular e sua associação inequívoca ao bolsonarismo, tem mais legitimidade para levar esse debate às redes, aos podcasts, aos vídeos curtos e às entrevistas. Ele pode dizer, com naturalidade política, que recomendou a Flávio a inclusão de três propostas capazes de falar diretamente à vida concreta das favelas: internet gratuita nas comunidades, zonas francas das favelas e regularização dos imóveis com titulação e escritura para os moradores.
Essas três bandeiras têm força comunicacional porque unem dignidade, oportunidade e patrimônio. A internet gratuita ou amplamente acessível nas favelas não é apenas uma pauta tecnológica; é uma promessa de estudo, trabalho, qualificação, acesso a serviços e libertação de monopólios locais que encarecem a vida do pobre. A zona franca das favelas, por sua vez, conversa com o pequeno empreendedor, com o comerciante, com quem vive do corre e quer menos imposto, menos sufoco e mais chance de formalizar seu negócio sem ser esmagado pela burocracia. Já a titulação dos imóveis toca num nervo profundo da vida popular: a vontade de deixar de ser invisível diante do Estado e passar a ser reconhecido como dono legítimo da própria casa, com escritura, segurança jurídica e patrimônio para a família.
Se Hélio levar essas ideias para o centro da comunicação eleitoral, ele não estará fazendo um gesto cosmético. Estará tentando romper uma barreira simbólica importante: a ideia de que só a esquerda fala com os pobres sobre futuro. Há milhões de brasileiros nas comunidades que não são militantes de partido, mas eleitores pragmáticos. Muitos continuam em Lula menos por convicção ideológica do que por medo de perder proteção e por falta de alternativa concreta que lhes pareça confiável. É exatamente aí que essa comunicação pode atuar. Não para prometer milagre, mas para plantar uma dúvida favorável: e se houver, do outro lado, uma proposta real de ascensão, propriedade, conectividade e liberdade econômica para quem mora na favela?
O ganho estratégico dessa iniciativa está justamente em seu caráter de teste político necessário. Talvez não baste. Talvez não converta, no curto prazo, grandes contingentes de voto. Mas, numa eleição competitiva, deixar de fazer esse movimento equivale a entregar de antemão um campo inteiro ao adversário. Pior: equivale a aceitar que o eleitor das favelas só possa ser mobilizado por linguagem assistencialista, quando muitas vezes ele também responde a mensagens de autonomia, respeito, oportunidade e valorização do esforço próprio. Hélio Lopes pode ser a ponte entre esse repertório e um público que dificilmente escutará a mesma mensagem com a mesma abertura se ela vier apenas pelos canais tradicionais da campanha.
Por isso, faz sentido que Hélio assuma publicamente esse papel e diga, sem hesitação, que apresentou essas sugestões a Flávio Bolsonaro e defende sua incorporação ao programa de governo. Não como manobra de marketing, mas como tentativa consciente de falar com quem mais precisa ser ouvido.
Em vez de tratar as favelas apenas como espaço de carência, essa abordagem as reconhece como território de trabalho, família, ambição e potência econômica. Se a campanha quiser ao menos arriscar um diálogo real com o eleitorado popular que ainda vê em Lula um depositário de esperança, esse é um caminho que merece ser percorrido com intensidade, repetição e convicção.
Na reta final, comunicar bem não é apenas repetir para os seus. É encontrar uma linguagem capaz de abrir escuta onde hoje ainda há distância.