No dia 24 de fevereiro, o ex-prefeito de Nova Iguaçu Rogério Lisboa foi anunciado como candidato a vice-governador na chapa de Douglas Ruas, nome do Partido Liberal (PL) ao Palácio Guanabara. Diante da notícia, comentei com amigos: “O Rio não é para amadores. Eduardo Paes é o candidato do Lula, mas sua vice é simpatizante do bolsonarismo. Douglas Ruas é o candidato do Bolsonaro, mas seu vice é um entusiasta do petismo”.
É uma situação, no mínimo, curiosa. Rogério Lisboa foi um dos principais articuladores da candidatura de Lindbergh Farias à prefeitura iguaçuana em 2004 e 2008. Foi seu secretário de Obras e elegeu-se deputado federal com uma publicidade tamanha que o eleitor mal distinguia quem era o candidato. À época, Rogério descumpriu resoluções de seu próprio partido, o PFL, que proibia coligações com o PT, e forçou a aliança local. Em 2016, elegeu-se prefeito tendo um petista como vice. Durante a pandemia, contrariou frontalmente o então presidente Bolsonaro ao fechar a cidade e manter escolas sem aulas por um ano. Já em 2022, subiu ao palanque com Michelle Bolsonaro por imposição de um aliado, confessando não simpatizar com o marido dela. Em suma: não faltam notas em seu currículo que o aproximem do campo lulista.
Mas, apesar do exotismo da situação, é preciso entender que a eleição regional obedece a uma lógica própria. Embora guarde semelhanças com o cenário nacional, as peculiaridades locais costumam se impor com mais força.
O ex-governador do Ceará, Ciro Gomes, utiliza uma expressão precisa para situações inusitadas como essa que envolve Rogério: o “tatu no toco”. Segundo Ciro, se você encontra um tatu em cima de um toco, sabe que ele não chegou lá sozinho; alguém o colocou ali. Com Rogério Lisboa aconteceu exatamente isso: ele é um tatu no toco na chapa de Douglas Ruas. Explico adiante.
A ideia de que Rogério é uma liderança popular e teria projeção política para estar nessa posição é, no mínimo, duvidosa. Ele venceu em 2016 em um contexto muito específico: o Brasil vivia a pior crise econômica de sua história e a classe política estava sangrando pela Lava Jato. Naquele ano, prefeitos que buscavam a reeleição perderam em massa devido aos cofres vazios e ao desgaste de imagem. Foi nesse cenário que Rogério derrotou Nelson Bornier.
Em 2020, consolidou-se o mito de sua “força extraordinária”. Na verdade, houve uma confusão entre habilidade política — que ele possui de sobra — e força eleitoral própria. O movimento mais astuto de sua carreira foi a aliança com o grupo do deputado Dr. Luizinho. Essa união garantiu sua reeleição em primeiro turno em 2020 e a vitória de seu sucessor, Dudu Reina, em 2024.
Da mesma forma, foi a aliança com Luiz Antônio Teixeira Júnior que colocou o “tatu no toco”. Rogério não possui estatura política estadual para ser vice em uma chapa competitiva por mérito próprio; sua relevância é estritamente municipal. Aqui, entra a conveniência regional: com a aliança entre Eduardo Paes e Washington Reis, a candidatura do prefeito carioca ganhou musculatura real. Uma vitória de Paes significaria a saída do grupo de Dr. Luizinho do comando da Saúde no Estado.
Para evitar esse cenário, selou-se a união entre o PP de Luizinho e o PL de Douglas Ruas. Luizinho, então, indicou seu preposto para a vaga de vice. Com essa indicação, o deputado atingiu dois objetivos: garantiu um aliado na chapa majoritária e removeu um obstáculo interno. Uma eventual candidatura de Rogério Lisboa a deputado (estadual ou federal) canibalizaria votos de outros aliados cujas bases estão em Nova Iguaçu.
Em resumo, a presença de um filopetista na chapa de um bolsonarista não é uma incoerência ideológica, mas uma manobra de engenharia política. É o tatu no toco colocado lá para garantir que as peças do tabuleiro estadual não saiam do lugar.